Ferramentas de busca
Martha Medeiros
Me buscam no universo da Internet. O internauta procura meus textos pelas diferentes razões. E eu me busco também e em todos os lugares.
O caderno de informática do Jornal do Brasil de segunda-feira passada publicou uma matéria sobre as palavras e expressões mais procuradas pelo site de busca Google em 2003. Britney Spears segue na liderança mundial das personalidades mais pesquisadas, enquanto que o assunto mais procurado foi Harry Potter. A matéria abordou também as procuras feitas no Google brasileiro, e você não imagina minha surpresa ao ver que faço parte do ranking, logo atrás da Monica Bellucci, o que é uma injustiça: o que é que ela tem que eu não tenho?
Me buscam, esta é a notícia boa. Buscam meus textos, e principalmente buscam a autoria correta deles, já que há inúmeros textos meus circulando pela internet com a assinatura de outros autores. Não importa a razão, me buscam. E eu me busco também. De uma maneira menos tecnológica, com ferramentas mais prosaicas, mas me busco, sou a campeã de busca de mim mesma.
Me busco em músicas que dão ritmo ao que sinto de forma silenciosa, e me busco em trechos de livros que revelam as ideias que mantenho ainda embaralhadas. Me busco no olhar das minhas filhas, no jeito que elas têm de andar, falar, pensar, no talento que elas têm de trazer a minha infância mais pra perto, de nem parecer que estou tão longe assim do que já fui. Me busco na intensidade da chuva, que é quando a natureza se impõe com mais tirania e beleza, e me busco em frente ao mar, que já me teve em tantos mergulhos. Me busco em cada conversa franca com um amigo, a cada vez que ouço dele uma dúvida que também é minha, uma experiência que é só dele mas torna-se um pouco minha também, pela afinidade e pela imaginação. Me busco quando me aquieto pra escutar meus pensamentos, que não são retos, certos, fáceis, e sim espasmódicos, contraditórios, provocativos, ora estão a meu favor, ora contra, e por isso me desencontro. Então escrevo, me busco em frases feitas e frases inventadas, colocando uma palavra atrás da outra na tentativa de construir uma lógica, um atalho, uma emoção que eu consiga sustentar e repartir, e depois que fecho o computador me busco no sono, nos sonhos, no inconsciente, no meu lado noturno, sombrio, quando perco a coragem e tudo me amedronta, a começar pelo fato que o dia terminou e a busca não se encerrou, nem irá, porque esse tipo de busca não se encerra.
Ainda que o resultado não seja tão fácil e imediato como acontece na internet, busque-se também. Há sempre um meio, um jeito, uma ferramenta eficiente à mão.
Domingo, 18 de janeiro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.